REF: #3424
José Martins Garcia - Katafarauns
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Katafaraum, o mais célebre de todos os centros da cultura hidrófila, foi arrasada por um maremoto, no ano setenta da nossa era. Lamentando tal perda, o historiador tem de reconhecer, todavia, que a submersão de Katafaraum aconteceu no momento exacto, isto é, no momento em que a cultura hidrófila executava a viragem para a esterilidade. Alguns pensadores pessimistas poderão objectar que estéril sempre o fora e sempre o seria essa cultura que deixou para a posteridade uma escrita intrigante. Nós responderemos que, para além das aparências, a escrita de Katafaraum legou-nos um tesouro, quanto ao sistema de representação e quanto às máximas que encerra.
O sistema de escrita usado em Katafaraum deu grandes dores de cabeça aos modernos Champollions. Foram propostas tantas teorias de leitura quantos os cérebros empenhados na decifração. Tentou-se a leitura da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda; de cima para baixo e de baixo para cima; na horizontal e na vertical; em cruz e em espiral; em árvore e em leque; em cilindro e em esfera; em teia de aranha. Nada. Até que o sábio oriental Nanfazcafalta, iluminado pela virtude de muitos jejuns, descobriu que a escrita de Katafaraum constituía um sistema sui generis, cuja leitura era independente dos traços deixados pelos escribas katafaraónicos.
A decifração dependia, não dos caracteres observados, mas exclusivamente da posição tomada pelo decifrador. Nanfazcafalta constatou que um erudito sentado nunca chegaria a interpretar um único símbolo katafaraónico. O mesmo se aplica aos sábios deitados, ajoelhados, acocorados ou de pé – posições que vedam o acesso ao símbolo. Nanfazcafalta empreendeu a decifração de numerosos fragmentos, colocando-se naquela posição a que se dá o nome de pyno. O êxito de Nanfazcafalta deve-se ao princípio que diz que as posições do texto e do leitor não são permutáveis.